quinta-feira, 8 de julho de 2010

Estranha Senhora

Por Alexandre de Paula




No começo do século XX no subúrbio uma pequena cidade do interior, vivia uma jovem que não era cobiçada pelos homens da época, pois ela se vestia com roupas estranhas e não apresentava uma beleza agradável, vivia sem ter amigos ou pessoas com quem pudesse conversar. Ela morava sozinha e sua casa era feia, inacabada, com muita sujeira e insetos, sempre se ouviam barulhos e rugidos estranhos, como se algo estivesse sendo construindo, algo que levaria meses ou até anos para ser terminado.
A estranha jovem passava muito tempo no porão da casa que era sujo e tinha pouca claridade, possuindo apenas uma janelinha de onde se dava para observar o que acontecia dentro do mesmo.
Na vizinhança moravam dois meninos, João e Pedro, dois garotos inteligentes e muito curiosos.
Num belo dia, João teve a idéia de explorar a casa tão temida e mais assustadora da região, conseguiram entrar pela janela da sala, dentro da casa tudo parecia abandonado, foram em direção a cozinha nos fundo, no corredor viram uma porta semi-aberta que dava provavelmente para um porão, ouviram barulhos, começaram a descer as escadas e de lá sentiram um cheiro muito forte, parecendo carne podre, quando desceram mais um pouco, abaixaram e viram que havia vários corpos em macas, muitos deles estavam mutilados. Ao perceberem que estavam diante de possíveis crimes, os meninos ficaram assustados, mais a curiosidade os impelia a continuar, desceram mais e esconderam-se num canto escuro, foi quando a jovem apareceu, eles começaram a tremer, ao vê-la com um bisturi nas mãos, ela se aproximou de um corpo, retirou cuidadosamente um pedaço de pele, ela fazia tudo com muita habilidade e cuidado, depois ela colocou a pele num recipiente e foi em direção a uma maca principal onde havia um corpo masculino.
João e Pedro continuaram por ali por alguns minutos, observando a movimentação, até que a campainha tocou e a moça saiu para atender a porta, os meninos decidiram se aproximar do corpo que a moça estava trabalhando e viram que realmente era um rapaz e o mais assombroso era que ele estava sendo construído com os pedaços dos outros corpos na sala, vários órgãos estavam dentro de recipientes com líquidos estranhos e fedorentos, neste instante eles perceberam que a moça estava voltando, não havia modo de fugir, então eles se esconderam novamente.
Os dois se seguraram para não chorar, pois a moça poderia ouvi-los e fazer com eles o mesmo que tinha feito com aquelas pessoas, que ali se encontravam.
No lugar havia muita poeira e Pedro era alérgico e bastou a jovem retirar e jogar um lençol em sua direção que ele não pode conter o espirro.
A jovem ouviu e ficou furiosa, afinal quem se atreveria a entrar na sua casa para bisbilhotar suas coisas, logo perguntou:
- Quem está aí? Como não obteve resposta, continuou trabalhando. De repente ela ouviu um barulho e virou-se foi neste momento que ela viu Pedro assustado tentando correr, ela rapidamente o agarrou com muita força, Pedro com medo começou a espernear e a pedir:
- Não me mata! Não me mata!
Ela começou a rir e Pedro se assustou mais ainda, então calmamente ela perguntou:
- O que você está fazendo aqui, menino enxerido?
- Estava brincando de pique – esconde com meu amigo... J...e... entramos aqui, me desculpa! Desculpa-me! Não me mate! Por favor!
Nisso João saiu de baixo da mesa, chorando e pedindo para que ela não matasse seu amigo, novamente ela começou a rir e disse docemente:
- Eu não vou matar vocês. E soltou Pedro que correu em direção ao João e surpresos perguntaram:
- O que você vai fazer conosco?
- Nada, eu não sou tão mal quando pareço.
João admirado perguntou:
- Então por que você tem tantas pessoas mortas em sua casa?
Ela então respondeu:
- Quando eu nasci, minha mãe morreu, então fui criada com meu pai e ele me batia muito, então por isso que eu sou assim, não tenho uma beleza que possa encantar os olhos dos homens dessa região, mas não é porque eu sofri tanto que mato pessoas, os corpos que vocês estão vendo são de pessoas que já estavam mortas, esses corpos eu peguei no necrotério, aquele que fica na saída da cidade.
A moça começou a falar baixo, como se estivesse contando um segredo:
- Eu vou contar para vocês porque eu peguei estes corpos, eu sou muito só e se o que eu estiver fazendo der certo, vai mudar toda minha vida! Com o olhar distante a jovem continuou divagando:
- Com ele não vou ter medo de sair nas ruas e quando estiver perto dele vou ficar mais segura, sem ter medo de errar e finalmente continuar o que meu pai parou de fazer após sua morte.
- Como assim ele? Perguntou Pedro sem entender do que a moça falava.
A moça ficou pensativa e continuou:
- Até porque estou muito doente, eu tenho uma doença que não tem cura.
Pedro começou a sentir pena da jovem e perguntou:
- Então você vai morrer em pouco tempo?
- Naturalmente, por isto que eu queria aproveitar a vida, enquanto ainda há tempo, pois os anos passam muito rápidos e estou construindo um homem para mim e vou aproveitar a vida que me resta.
João e Pedro acharam aquela história muito esquisita, tinham que sair logo dali, e começaram a se desvencilhar da jovem com a intenção de sair logo daquele lugar fétido.
- Estamos muito tristes com sua história dona, mas temos que ir, prometemos que não vamos contar para a polícia e para ninguém o que vimos aqui, certo? Então tchau moça!
Neste momento a jovem mudou a fisionomia e disse bruscamente:
- Realmente vocês não vão contar nada para ninguém! Agora que vocês sabem de tudo não posso deixá-los ir. Disse isto agarrando os dois pelos braços e colocando na mesa e amarrando fortemente.
- Vou cortar vocês em pedacinhos para ninguém reconhecer vocês.
Os dois ficaram desesperados e começaram a gritar, inutilmente, pois ninguém poderia ouvi-los lá do porão da casa. Então eles propuseram à jovem que eles poderiam ajudar no seu mórbido trabalho.
A jovem recusou a ajuda e disse que tinha outros planos para eles e continuou trabalhando, pois já estava quase no final da sua obra.
Os meninos assistiram a todo o trabalho, apavorados e torcendo para que a aquela loucura acabasse quando ela percebesse que jamais conseguiria trazer a vida um corpo construído com pedaços de outros corpos.
Mas eles estavam enganados a jovem era filha de um famoso cientista que durante sua vida pesquisou sobre a possibilidade de trazer vida a corpos inanimados através de correntes elétricas e fluídos sintéticos, o problema é que ele faleceu antes de comprovar suas teorias, a jovem que herdara a inteligência do pai, estudou suas anotações, montou novamente seu laboratório e resolveu dar continuidade as estranhas experiências do pai.
Quando os meninos invadiram a casa da jovem, ela estava no final de sua experiência, e não demorou muito para finalizar a construção do “homem perfeito”, a jovem parecia indecisa e nervosa, faltava apenas dar a descarga elétrica que faria funcionar os órgãos do morto, trazendo-o novamente a vida.
- Será que vai dar certo? Perguntava ansiosa a jovem a si mesma.
A cena foi apavorante, depois de fazer as últimas costuras na pele, a jovem colocou os transmissores de energia e aplicou uma descarga elétrica no peito da criatura, esta depois de alguns minutos abriu os olhos e lentamente sentou-se na maca, seu semblante era duro e suas feições cruéis, olhou para tudo em sua volta e seu olhar continha muita raiva, fixou seu olhar num canto onde estavam João e Pedro amarrados, a jovem foi logo dizendo:
- Meu querido, seja bem-vindo, imagino que você esteja com fome, meu pai havia previsto que a ressurreição provocaria uma reação semelhante a nossa fome e que somente a carne humana satisfaria.
A criatura olhou para a jovem como se a reconhecesse, no entanto não disse nada, apenas saltou da maca onde estava sentado, sua visão era horrível, embora fosse feito das melhores partes dos corpos, não deixava de ser um recorte de carne deformado.
Neste meio tempo a jovem agarrou os meninos e os arrastou até a criatura e os ofereceu, dizendo:
- Meu amor, guardei estes meninos para sua primeira refeição, tome esta faca, imagino que você prefira carne fresca.
A criatura continuou olhando para os meninos, como se não ouvisse a jovem que permanecia apreensiva a seu lado.
Os meninos tremiam e choravam imaginando os horrores que iriam passar, mas para surpresa deles a criatura voltou seu corpo e seu olhar para a jovem e nos seus lábios roxos brotou um sorriso maligno e com uma voz rouca disse abrindo os braços:
- Minha querida...
A jovem estupefata com a ação da criatura soltou os meninos e caminhou em direção ao seu amado, que a abraçou fortemente, inicialmente parecia um abraço normal mais ele começou a apertar e sufocá-la, então a jovem percebeu e tentou se soltar, mais não conseguia.
João e Pedro ao verem isto, aproveitaram a oportunidade para sair correndo, a jovem começou a pedir socorro desesperada, quando os meninos alcançaram à escada que dava acesso a sala, olharam para trás e viram a moça agonizando, Pedro disse:
- João vamos voltar para ajudar!
Mas, João conseguindo abrir a porta olhou para a cena e com um olhar desdenhoso, disse para eles correrem, pois não podiam fazer nada, a não ser buscar ajuda.
Ao sair da casa os dois correram muito até encontrarem um rapaz que vendo o desespero dos dois chamou a polícia.
Ao chegar e ouvir a história dos meninos, os policiais acharam melhor ir a casa para constatar se não era apenas a imaginação dos meninos, como a casa estava aberta os policiais entraram observaram que tinha muita coisa antiga e muita sujeira, mais não encontraram nada de errado, irritados decidiram chamar os garotos que estavam do lado de fora.
O policial perguntou para os meninos se eles não estavam mentindo, os dois explicaram que os corpos ficavam no porão da casa, o comandante ordenou que os seus homens entrassem novamente olhando tudo, pois havia um porão na casa.
Lá embaixo veio a surpresa, além de ter muitos corpos espalhados pelo local, havia muito sangue, muitas coisas reviradas como se ali se estive ocorrido uma briga, no centro estavam os corpos de uma mulher, semelhante com a que os meninos haviam falado e de um estranho homem junto a ela, o corpo da mulher estava dilacerado com marcas de facadas, unhas e mordidas, já o homem estava com uma faca cravada no peito, como se ele tivesse se matado.
A polícia fez uma investigação e descobriu que as maiorias dos corpos que estavam no local eram de jovens que haviam desaparecido recentemente e que outros corpos realmente tinham sido roubados do necrotério da cidade, as famílias foram comunicadas e agradeceram muito aos meninos por ajudarem a encontrar seus entes queridos desaparecidos.
Estes por sua vez, ficaram muito traumatizados com que viram e somente depois de muito tempo conseguiram superar o trauma.
A polícia também descobriu que o nome da jovem que fazia as experiências era Rebecca Muller, ela e o misterioso homem, que possivelmente a matou, foram enterrados na vala comum do cemitério da prefeitura, as autoridades fizeram o possível para que a história não saísse nos jornais para não criar alarde diante dos fatos macabros.
Com o passar do tempo a cidade esqueceu os fatos, a casa que havia ficado abandonada foi demolida e construíram um parque no local, ironicamente onde os netos de João e Pedro as vezes brincavam, sem imaginar o quanto seus avós haviam sofrido naquele lugar.







Nenhum comentário:

Postar um comentário